Correspondências

Adriana Varejão (1964), Parede com incisões à la Fontana, 2000 / Wall with incisions à la Fontana, 2000.
8 de agosto - 28 de setembro, 2013
3a à 6a feira de 11 às 19h Sábado de 11 às 17h

Catálogo

Press Release

Texto: Felipe Scovino

Esta exposição, que inaugura um novo momento para a Galeria Bergamin, apresenta um recorte audacioso. Em um país em que notadamente a formação, o estudo e a pesquisa sobre arte se dá de forma mais consistente através da esfera privada, Correspondências acentua o caráter experimental e a pertinência das manifestações artísticas produzidas no Brasil em relação ao contexto artístico global. Esta afirmação advém de uma história (e historiografia) da arte fraturada que é, e simultaneamente deixa de ser, exposta nas nossas instituições públicas. Anos de negligência pública que se tornam visíveis em acervos nos quais as faltas são evidentes, fizeram com que as galerias se tornassem importantes meios de exposição e aprendizado sobre a nossa produção artística.

Nesta exposição, o que se apresenta são estratégias de correspondência. Para além da heterogeneidade de discursos, propostas e suportes, estão diante de nós diálogos, associações e afinidades. Em alguns casos, regidos por uma ironia (como nas obras de Emmanuel Nassar e Nelson Leirner) ou associações livres e poéticas que nos fazem pensar na ampliação do suporte feito por quem homenageia (como são os casos das obras de German Lorca, Miguel Rio Branco e Thiago Rocha Pitta, nas quais a fotografia transita em direção a pintura, ganhando texturas, luz, elementos táteis, pulsantes que a faz estar em uma situação fronteiriça). As oposições também existem, seja através das formas, técnicas, linguagens e assuntos, sem, entretanto, formar um sentido geral definitivo ou hierarquizá-los prematuramente, isto porque a abrangente condição artística na sua atualidade não se fixa em parâmetros históricos e critérios artísticos precisos e definitivos. As homenagens a Lucio Fontana são um exemplo disso. O seu romântico corte abrupto, seco e libertador sobre a tela transforma-se na obra de Leirner em um abrir e fechar zíperes. Passamos a rasgar o tecido numa atitude explicitamente dadá. Na obra de Luciano Figueiredo, as dobras e sobreposições de lonas flutuam, giram, escapam para fora da “tela”, criando uma relação da cor com o espaço. As tramas torcidas representam o registro de um tempo, ou a materialidade de uma estrutura em trânsito. Já na obra de Adriana Varejão a tela se transforma numa epiderme na qual os azulejos se revelam como um corpo violentado. Imagens barrocas, próprias dos embates do Brasil colônia, emergem desses densos altos-relevos de tinta e poliuretano.

A diversidade e heterogeneidade não estão só nos temas, assuntos ou conteúdos, mas também – e aqui é outro ponto de qualidade da exposição, a sua capacidade de revelar a multiplicidade de pesquisas na contemporaneidade – nas linguagens e nas mídias nas quais as obras podem aparecer ora como, pintura, escultura ou fotografia, ou ainda como algo de indefinida e incerta sistematização. A exposição percorre pontos distintos que podem variar entre a obra de Hélio Oiticica e Waltercio Caldas. No caso do último, a “materialidade” do vazio e sua incompletude ficam evidenciadas em O livro Velázquez (1996) que, por sua vez, potencializa na experiência gráfica o que ocorre em sua escultura: o vazio e o silêncio como produtores de espaço. Já em Oiticica, a série das Cosmococas torna aparente a atmosfera ruidosa, caótica e dionisíaca tanto do ambiente em que trabalhava quanto das escolhas artísticas e pessoais que tomava para si. Como afirmou o artista, “o objeto foi uma passagem para experiências cada vez mais comprometidas com o comportamento individual de cada participador, faço questão de afirmar que não há a procura, aqui, de um ‘novo condicionamento’ para o participador, mas sim a derrubada de todo condicionamento para a procura da liberdade individual, através de proposições cada vez mais abertas visando fazer com que cada um encontre em si mesmo (…) o que Mário Pedrosa chamou de ‘exercício experimental da liberdade’”[1]. É curioso observar a passagem ou a influência das linguagens construtivas em artistas de pesquisas, e mesmo gerações, tão distintas como é o caso desses dois artistas, mas cujo ponto de partida foi a investigação do plano e da cor. Esta mesma consideração pode ser estendida para a pesquisa de Raymundo Colares, na medida em que suas pinturas, tanto bidimensionais quanto “gráficas” (e aqui me refiro aos Gibis), estão em trânsito, nunca se completam, assim como a assimetria de Mondrian, um dos seus homenageados: um constante refazer-se.

Ao mesmo tempo em que identificamos proximidades entre quem homenageia e homenageado revelam-se ícones fundamentais que contribuíram decididamente para a transição do moderno ao contemporâneo nas artes visuais brasileiras. Desde as vanguardas construtivas, passando pelo dadaísmo (tão importante para Waltercio Caldas e por outro motivo para Leirner), Brancusi (um dos mestres de Sergio Camargo, e que deixou um legado para a escultura ao produzir uma obra que atua por oposições e rupturas de elementos em função de um sistema rigoroso e – se pensarmos nos relevos de madeira da década de 1960 de Camargo – que torna-se ambiguamente austera e desordenada, descontínua e organizada, veloz e insistente), a releitura da land art por Vik Muniz tencionando os limites da representação e usando a ambiguidade que a imagem proporciona para por em dúvida as nossas certezas, até a pintura minimal, que foi tão cara a Paulo Roberto Leal quanto o construtivismo.

Simultaneamente ao fato de que as linguagens construtivas influenciaram grande parte da produção de arte brasileira ao longo do século XX, é esclarecedor o modo de como ela foi assimilada pelos artistas. Estão presentes nas duas vertentes (“de” e “para”) uma gama de discursos que varia entre uma abstração quase artesanal no seu modo de aparição no mundo e aqui refiro-me a têmpera utilizada por Volpi; a um cinismo corrosivo e ácido de Leirner na sua já proclamada Homenagem a Fontana, transformando o material (a lona) e o meio (o zíper) em uma articulação construtivista; passa pela experimentação gráfica, pictórica e fotográfica – não necessariamente nessa ordem – de Geraldo de Barros, Oiticica, Lygia Pape e Raymundo Colares que culmina num reposicionamento crítico da tríade artista/objeto/espectador; e finalmente como a vanguarda construtiva foi lida pelas gerações seguintes aos neoconcretos, evocando desde um dose de sarcasmo (Emmanuel Nassar), passando por uma leitura muito particular da questão sensorial e como a escultura pode ser metaforizada como pele ou corpo (Cildo Meireles), ou uma possibilidade de como escultura pode ser convertida em desenho no espaço (em particular em Rodchenko, de Waltercio Caldas ou na obra de José Resende), ou ainda uma aproximação entre o Pop e as linguagens construtivas em Paulo Roberto Leal (apesar de Eu e Palermo ter uma correspondência com Blinky Palermo e portanto estar mais próximo de um discurso sobre a forma e os monocromos ao mesmo tempo em que discute uma experiência sobre os princípios construtivistas de ordem) e Wanda Pimentel.

Na construção de distintas invenções, homenagens, correspondências, esses artistas lançam mão de um repertório que sobrevoa o artificial e o real, o inventado e o concreto, a verdade e a mentira, o original e a cópia, a imagem e seu referente e que, reunidas, não se dividem mas mantêm relações fluidas. Esse conjunto de trabalhos nos revela o dado da vitalidade da obra de arte, visto que a realidade não é mais exatamente a mesma, ela está em constante transformação: ela é duplicada, confrontada, e reforçada pela ficção.

[1] OITICICA, Hélio. Aspiro ao grande labirinto. Organização de Luciano Figueiredo; Lygia Pape; Waly Salomão. Rio de Janeiro: Rocco, 1986, p. 102-104.

Adriana Varejão (1964), Parede com incisões à la Fontana, 2000 / Wall with incisions à la Fontana, 2000.
Vik Muniz (1961), Brooklyn, NY (Split, a partir de Gordon Matta-Clark), 1999/2013 / Brooklyn, NY (Split, after Gordon Matta Clark), 1999/2013.
Montez Magno (1934), Mondrian, 1986.
Raymundo Colares (1944-1986), Gibi - Decomposição de um trabalho de Mondrian, 1983 / Gibi - Deconstruction of a work by Mondrian, 1983.
Vik Muniz (1961), Brooklyn, NY (Spiral Jetty, a partir de Robert Smithson), 1997/2013 / Brooklyn, NY (Spiral Jetty, after Robert Smithson), 1997/2013.
Mauro Restiffe (1970), Vermeer, 1998 / Vermeer, 1998.
Miguel Rio Branco (1946), Morandi perverso, 1993/2013 / Morandi perverso, 1993/2013.
Miguel Rio Branco (1946), Lembrando Yves Klein, 1993 / Remembering Yves Klein, 1993.
Waltercio Caldas (1946), Rodchenko, 2004 / Rodchenko, 2004.
José Resende (1945), Homenagem a Maria Martins, 2009 / Homage to Maria Martins, 2009.
Nelson Leirner (1932), Quebra-cabeça, 2001/2009 / Puzzle, 2001/2009.
Wanda Pimentel (1943), Montanhas do Rio (Homenagem a Raymundo Colares), 1986 / Montanhas do Rio (Homage to Raymundo Colares), 1986.
Emmanuel Nassar (1949), Mãodrian, 1994 / Mãodrian, 1994.
Lygia Pape (1927-2004), Homenagem a Volpi, 1989 / Homage to Volpi, 1989.
Waltercio Caldas (1946), Man Ray, 2011 / Man Ray, 2011.