CASA 7

Paulo Monteiro, Sem título [Untitled] (1995)
25 de outubro - 13 de dezembro, 2014

Poster da Exposição

Press Release

Curadoria: Tiago Mesquita

A Casa Sete foi um ateliê, antes de qualquer coisa. Um espaço de trabalho na cidade de São Paulo onde um grupo de artistas, entre 1982 e 1985, deu início a sua vida profissional. Rodrigo Andrade, Carlito Carvalhosa, Fábio Miguez, Paulo Monteiro e Nuno Ramos (antes dele, Antonio Malta), todos pintores, conheceram-se na escola e desde então iniciaram conversas intensas sobre arte.

O ateliê funcionou em um momento atribulado da história social do país e da arte. O Brasil começava a última etapa da sua infindável transição democrática. O endividamento externo era alto, os salários estavam arrochados, e a inflação, galopante. As esperanças de se livrar de uma ditadura militar se misturavam com as incertezas de se estar à mercê de crises cíclicas. Tal como o trabalho dos artistas, havia algo de promessa e de ruína.

Na arte contemporânea dos países do Atlântico Norte, a pintura, que sempre esteve presente, voltava ao centro da discussão. Nas décadas anteriores, as neovanguardas atuaram deliberadamente contra a formalização mais decidida e complexa, contra as linguagens tradicionais, contra a contemplação, contra a autonomia da arte. Depois, a pintura recuperou o prestígio de outros tempos e, nos anos oitenta, parte da conversa girou em torno de convenções, formas tradicionais e seus significado históricos e iconográficos. Problematizavam-se significados da arte consagrados pela história em países com tradição, instituições e vanguarda plenamente consolidados.

Tal discurso meta-artístico foi assimilado pelos pintores da Casa Sete, embora não tenha sido o objeto prático de seus trabalhos. Eles também partiam de fragmentos de figuração, gêneros da arte, mas suas pinturas não pareciam ironizar o passado e nem torná-lo um pastiche. Os objetos, os temas, os modos de pintar apresentavam-se como cacos, como fragmentos de uma pintura. Se existe algo comum àquela produção são objetos, formas, figuras que, por excesso de matéria, por falta de intervalo entre as figuras e o fundo, uma forma e outra, aos poucos perdem a definição. A matéria mesmo não se conforma aos desígnios da forma e uma coisa parece se fundir na outra. Se algo possuía algum sentido iconográfico, aos poucos isso se atenua, como resíduo de uma imagem que ficou para trás. Ainda nos anos oitenta, a superfície é tomada pela matéria colorida, viscosa e nada se apresenta com facilidade.

Casa Sete não é uma exposição dos trabalhos da época neoexpressionista dos citados artistas. Mostro aqui obras que definiram a trajetória de cada um deles quando o ateliê Casa Sete já não mais existia.

Os trabalhos tomaram caminhos muito distintos, porém a indefinição, a recusa em tornar os objetos evidentes na descrição parece persistir no trabalho de cada um desses artistas. Seja a ilusão carregada de matéria da pintura de Rodrigo Andrade, a natureza indeterminada dos espaços na escultura e pintura de Paulo Monteiro, a hibridez sem fim dos quadros de Nuno Ramos, os espaços insondáveis que se projetam nas pinturas e na neblina fotografada por Fábio Miguez e a superfície enganosa dos trabalhos de gesso, cera e tule de Carlito Carvalhosa.

Trata-se de uma exposição modesta. Reúne poucos trabalhos e passa longe de uma compreensão abrangente da contribuição viva de cada um dos artistas e seu profícuo diálogo. É uma apresentação.

Eu me formei como crítico olhando tais trabalhos. São artistas que formaram meu gosto. Acredito que essa complexidade e a recusa de qualquer evidência simples tenha sido algo comum a todos os artistas aqui mostrados e continua sendo um elemento central para pensar a arte recente e a vida contemporânea. As obras desses artistas resistem em se diluir em comentários simples do mundo e na identificação imediata com elementos reconhecíveis. Em um período em que a produção se legitima a partir de justificativas retóricas, morais, teóricas, olhar para algo que não é a ilustração de nenhuma doutrina é um alívio.

Paulo Monteiro, Sem título [Untitled] (2000)
Carlito Carvalhosa, Sem título [Untitled] (1993/1994)
Nuno Ramos, Sem título [Untitled] (1991)
Fabio Miguez, Sem título, da série Estação IV [Untitled, from the series Estação IV] (1999)
Carlito Carvalhosa, Sem título [Untitled] (1985)
Rodrigo Andrade, Sem título [Untitled] (1986)
Fabio Miguez, Sem título [Untitled] (1994)
Paulo Monteiro, Sem título [Untitled] (1995)
Nuno Ramos, Sem título [Untitled] (1997)