BEUYS

Capri-Batterie, 1985, Capri-Batterie, 1985
17 de março - 30 de Abril, 2016  
2a à 6a feira de 10h - 19h Sábado de 10h - 15h

Postais Exposição

Press Release

Artista: Joseph Beuys

Nada a ver com Arte
Jacopo Crivelli Visconti

 

No dia 10 de outubro de 1972, após a intervenção da polícia alemã, Joseph Beuys e seus estudantes são expulsos da Reitoria da Staatliche Kunstakademie de Düsseldorf, que haviam ocupado para protestar contra a política da universidade de limitar o acesso aos cursos da Academia de Belas Artes. A primeira etapa da carreira acadêmica de Beuys, iniciada em 1963 e marcada por inúmeros conflitos com o restante do corpo docente, se encerraria no dia seguinte, ao ser despedido pela Kunstakademie.[1] Na foto que retrata o momento em que Beuys e os estudantes deixam a sala da reitoria, desfilando sob os olhares dos policiais, o artista alemão parece tranquilo e satisfeito. Ele sorri. Mais tarde, escreveria à mão na foto, com a sua inconfundível caligrafia: Demokratie ist lustig [A democracia é divertida].

Beuys morreu em 23 de janeiro de 1986. Exatos trinta anos depois, após uma ocupação de quase dois meses, os últimos alunos que se mobilizaram contra o plano de reestruturação da rede estadual de ensino, em todo o Estado de São Paulo, deixavam as escolas após obter a suspensão do plano por parte do Governo do Estado. Se a coincidência de datas pode parecer casual, ou até irrelevante, o fato é que a lição de Beuys, a maneira como ele soube fundir a produção artística com a necessidade impelente de agir no âmbito das transformações sociais, continua atual e urgente. A partir de Joseph Beuys, o campo expandido da escultura e, metonimicamente, da arte inclui práticas e intervenções que procuram agir exatamente no cerne das relações sociais. A sua célebre afirmação de que “todo homem é um artista” visava estimular a criatividade em todas as áreas da atividade humana, mas é evidente que, ao estender a condição de artista a todos os homens, cumpre também uma ação democratizante. É extremamente sintomático, no contexto dessas reflexões, que uma das imagens mais célebres o retrate exatamente no ato de andar, mais precisamente caminhando em direção à câmara, ou ao observador. Sobreposta à imagem, a escrita “la rivoluzione siamo noi [a revolução somos nós] enfatiza a igualdade, quase a comunhão entre o artista e o resto da sociedade, e sintetiza a relação indissolúvel entre revolução e marcha, algo que o próprio termo “movimento”, no cruzamento altamente simbólico de suas diversas acepções, explicita de maneira evidente.

A democracia, pelo menos a versão dela que nos foi apresentada nos últimos meses no Brasil, não é exatamente divertida. E, apesar da vitória na recente COP21 (que um número cada vez maior de ambientalistas considera pírrica), a luta para que uma consciência ecológica de longo prazo prevaleça sobre considerações econômicas imediatistas está longe de ser ganha. Em outra demonstração de quanto estava à frente do seu tempo, ainda no começo dos anos 1970, quando o ativismo ambientalista era considerado quase uma excentricidade, Beuys iniciou, em colaboração com Lucrezia de Domizio, um projeto de longo prazo nos campos de Bolognano, na região do Abruzzo, na Itália, articulado ao redor de conversas, discussões de cunho social e político, e atividade agrícola realizada ao lado dos camponeses locais, dos quais resultariam desenhos, vídeos, esculturas e diagramas sobre as lousas utilizadas nas reuniões. Em 1983, o projeto foi incorporado às atividades da Free International University e batizado de F.I.U.: Difesa della natura [F.I.U.: Defesa da natureza]. Em 1980, Beuys já havia demonstrado o caráter essencialmente político do seu engajamento na questão ecológica, tendo sido um dos fundadores do Partido Verde alemão, pelo qual se elegeria ao Parlamento Europeu. Paralelamente a essas ações, em 1982, por ocasião da Documenta de Kassel, iniciava o que viria a ser um de seus últimos e mais ambiciosos projetos, completado apenas em 1987, um ano após a sua morte. Intitulado 7000 Eichen [7000 carvalhos], consistiu no plantio de 7 mil árvores de carvalho, cada uma acompanhada por uma estela de basalto, em inúmeros pontos da cidade de Kassel, e foi sucessivamente repetido em várias ruas e praças ao redor do mundo.

O que torna as ações contundentes, pragmáticas e objetivas de Beuys no âmbito social, político e ecológico ainda mais interessantes é a aparente contradição com os traços quase messiânicos da conhecida biografia do artista, e com a ênfase que ele colocou desde sempre na componente mística do seu trabalho. A predileção por materiais vivos, como o mel ou a gordura, entre outros; a metódica construção de um personagem quase mítico; a crença cega no poder taumatúrgico da arte; a analogia da figura do artista com a do xamã, tudo contribui para a formação de uma imagem de artista romântico, idealista, mais alquimista do que revolucionário. Se é verdade que a passagem de uma produção mais ligada ao objeto para a predileção de ações sociais está ligada ao desenvolvimento do conceito de “escultura social”, que se torna central na sua poética ao longo dos anos 1970, a grande lição de Beuys reside na capacidade de fundir os dois extremos, de construir, isto é, uma narrativa composta de inúmeras camadas, algumas mais alusivas e simbólicas, outras mais explícitas e imediatamente compreensíveis. E compreensíveis, cabe acrescentar, em primeiro lugar pelas massas, às quais o artista se dirigia tanto ao engajar-se em lutas políticas quanto ao produzir a maioria de suas obras em tiragem muito elevadas[2] ou ao lançar discos e até vídeos, como o curioso Sonne Statt Reagan, de 1982, no qual ele pede “sol ao invés de Reagan”. Um de seus últimos múltiplos, a pequena Capri – Batterie [Bateria de Capri], de 1985, simboliza a fusão indissolúvel do lado pragmático e do lado místico/alquímico em sua obra. O limão intensamente amarelo da ilha de Capri, que para Beuys representa o sol quente e vivificador do sul da Itália,[3] e por extensão a força da natureza mediterrânea, transcende seu nível metafórico e simbólico para tornar-se uma bateria. Para tornar-se, isto é, um objeto aparentemente prático e prosaico, mas que por sua vez é um dos elementos-chave do universo beuysiano, exemplo supremo da inteligência humana e acumulador da inexaurível energia natural. Em outras palavras, a Capri – Batterie abre e fecha sem solução de continuidade o círculo entre o campo simbólico e o pragmático, oscilando ininterruptamente entre a apologia da natureza (ou do mundo) em sua beleza real e sensível, e a defesa de seu valor intangível, simbólico e alquímico.

 

 


[1] Em 1973, Beuys fundaria a Free International University [Universidade Livre Internacional], baseada num manifesto redigido com Heinrich Böll e que tinha o objetivo primordial de estimular a criatividade em todas as suas manifestações e em todos os âmbitos, inclusive o social e o político.

[2] Nas palavras do artista: “Apesar de não parecer que esses produtos possam trazer mudanças políticas, eu acredito que deles emana mais assim do que se as ideias por trás deles fossem abertamente reveladas”, apud SCHELLMANN, Jörg e KLÜSER, Bernd. Joseph Beuys, Multiples. Munique: Schellman & Klüser, 1980.

[3] A importância do sol e da natureza radiante do sul da Itália na cosmologia de Beuys é fundamental. Vale a pena ler, a esse respeito, a entrevista a Lucio Amelio, galerista e amigo de Beuys, em COOKE, Lynne e KELLY, Karen. Joseph Beuys Arena – where would I have got if I had been intelligent! Nova York: Dia Center for the Arts, 1994 (p. 34-51), de onde é extraído também o título deste texto.

Capri - Batterie, 1985
Telephon S-----E, 1974
Magnetischer Abfall, 1975
Demokratie ist lustig, 1973
Apri bene la bocca, 1978
Felt Suit, 1970
La Rivoluzioni Siamo Noi, 1972
Objekt zum Schmieren und Drehen, 1972
From Eurasia Staff, 1973
Earth Telephone, 1973
Vino FIU, 1973
Mirror Piece, from Mirrors of the Mind, 1975
Vista da exposição (Installation view)
Vista da exposição (Installation view)
Vista da exposição (Installation view)